domingo, 15 de março de 2015

Vo Nguyen Giap - O homem e a arma


Um dos maiores estrategistas militares do século 20 reflete em seu artigo os debates dos anos 1960, sobre os limites estratégicos que impunha a hegemonia nuclear e armamentista do exército dos EUA na luta de classes e por extensão na libertação nacional e anticolonial. Um debate sobre consciência de classe como estratégia para derrotar a luta apoiada apenas no poderio bélico.




Por Vo Nguyen Giap*



Segundo o marxismo-leninismo, o motor do desenvolvimento da sociedade humana dividida em classes, é a luta de classes, e são as massas populares as que sempre fazem a história. Portanto, ao analisar a relação entre o homem e a arma, nosso partido afirma que é o homem o fator decisivo, e critica energicamente a teoria burguesa de que a arma é o decisivo.


Tratando de salvar-se do perigo de seu aniquilamento, o imperialismo leva a cabo, com todos seus esforços, a propaganda sobre a “onipotência das armas” e na realidade utiliza a arma para dominar o homem, ameaçando e reprimindo o movimento revolucionário dos povos trabalhadores. Para revisar os pontos de vista fundamentais do marxismo-leninismo sobre a luta de classes, os revisionistas contemporâneos se apoiam sobre a arma nuclear. Consideram que, ante o grande poderio da arma nuclear, os povos trabalhadores oprimidos e explorados não têm outro caminho que o de substituir a luta de classes pela conciliação de classes. Tomam a chamada “contradição entre a humanidade e a arma nuclear” para substituir a contradição de classes e não distinguem o amigo do inimigo, as guerras justas das injustas, os instigadores de guerra dos defensores da paz.

Os marxistas consideram que a arma nuclear tem grande potência, mas que não é mais que um instrumento da luta de classes e que não a substitui. A arma nuclear influi enormemente na estratégia e tática militares, mas não muda a estratégia revolucionária do proletariado nem a faz confundir acerca de quais são seus inimigos e quais seus amigos. As armas nucleares influem no desenvolvimento das hostilidades e na vitória, mas não é o elemento determinante da vitória e tampouco fazem mudar a perspectiva de desenvolvimento da sociedade. Na guerra, o fator decisivo é e será sempre o homem; as massas populares são e seguirão sendo as forjadoras da história. O proletariado e o povo trabalhador, oprimidos e explorados, hão derrubado, na luta de classes, o jugo dominante da classe exploradora, hão conquistado triunfos consecutivos e continuam vencendo apoiados principalmente em seu nível de consciência e espírito organizativo. Por haver escutado as teses que consideram a arma como fator decisivo e ao possuidor de muitas e boas armas como vencedor certo sobre o que tem poucas e ruins, o proletariado e os povos trabalhadores oprimidos teriam cruzado os braços e entrado por um beco sem saída e não teriam podido construir, partindo com as mãos vazias, a obra que atualmente hão realizado. (...) 

A guerra é a continuação da luta política mediante as armas. Toda guerra tem caráter de classe. A luta armada dos povos oprimidos e explorados é a luta contra a classe opressora e exploradora pela conquista da independência nacional, a democracia e o direito a viver do homem. Assim, na formação das forças armadas, a fim de lograr a vitória na guerra, como conceber e resolver o problema do homem e a arma? 

Partindo da afirmação de que os promotores principais de nossa revolução são as massas obreiras e campesinas sob a direção do Partido da classe trabalhadora, nosso partido preconizou, desde o dia de sua fundação e em seu programa político: “fundar um exército obreiro-campesino”. Os homens das forças armadas de nosso partido e povo não são mais que o obreiro, o camponês e o povo trabalhador. São os que têm como objetivo de luta a independência nacional, a terra para os que a trabalham e o avanço até o socialismo. Com tão justa causa por objetivo, com o invencível ideal do marxismo- leninismo, os combatentes e cuadros revolucionários das forças armadas do povo vietnamita são persistentes e férreos núcleos unidos que nenhuma violência poderá quebrantar; por cruel que seja o inimigo, não o temem; por mais armas modernas que este tenha a seu alcance não poderá derrotá-los. A história da luta e o crescimento durante vinte anos de nosso exército e sua tradição de “resolvidos a combater e a vencer” demonstram eloquentemente que nosso exército conseguiu uma poderosa força de luta porque é um exército obreiro-campesino, formado por elementos destacados do proletariado e campesinato, criados pelo povo, organizado e dirigidos pelo Partido da classe trabalhadora. 

Assim, quando apreciamos o papel do homem na luta armada e nas forças armadas, devemos assinalar claramente seu caráter de classe, é dizer, ver qual é a classe que leva a cabo a guerra e a natureza de classe dessas forças armadas. Ali reside a diferença fundamental entre a ciência militar proletária e a ciência militar burguesa. (...) 

Alcançado o ponto de vista marxista sobre o papel do homem, vemos, imediatamente, a perspectiva do exército e do lado de quem se encontra a vitória. Isto reflete o caráter invencível da guerra justa dirigida pelo proletariado -e de seu exército- representante do modo de produção mais progressista da história. Reflete também a derrota inevitável da guerra injusta levada a cabo por uma classe moribunda e a desagregação inevitável de todos os exércitos da classe exploradora. Nosso Partido enfrentou firmemente o problema chave, vital, qual é a natureza proletária na formação do exército. Assim nosso exército foi provado no fogo da luta e cresceu rapidamente como o “Apóstolo Llong” (1). De hoje em diante, quanto a nossa observação da situação do homem dentro das forças armadas, devemos manter firmemente este problema vital. 

Qualquer que seja o exército, ao analisar suas características, vemos que elas resultam da coordenação entre dois fatores fundamentais, cujas relações são inseparáveis: o homem e a arma. Mas o caráter da relação entre esses dois fatores decide a natureza de classe do exército e da guerra que leva a cabo. No exército da classe exploradora, dedicado a realizar guerras injustas, de acordo com a contradição antagônica existente entre os exploradores, donos das armas, e as massas militares pertencentes às classes exploradas, obrigadas a ser carne de canhão e a lutar como mercenários, a lei da coordenação entre o homem e a arma é oposta, a arma é a que domina o homem; também aqui, entre o homem e a arma, existe uma contradição antagônica, reflexo do antagonismo de classe entre o homem explorador e o explorado, entre os exploradores donos das armas e os que as empunham como mercenários. Não obstante, quando o soldado ignorante de seus interesses de classe empunha a arma para combater e obtém vitórias, cada vitória obtida é sua própria derrota, já que é um trabalhador oprimido e explorado. Os interesses dos trabalhadores somente serão garantidos quando rechaçar o uso das armas para combater como mercenário, realizar a luta contra a guerra e voltar o canhão do fuzil para disparar à cabeça dos exploradores, possuidores das armas. 

Esse é o caminho de lógico desenvolvimento dos exércitos da classe exploradora, especialmente os do imperialismo, seus títeres e lacaios; porque, de acordo com as leis da história, são as massas exploradas as que vencerão as classes exploradoras; porque, o homem é quem fabrica o material e o domina e não se deixa nunca dominar pelo material. Apesar de que os exploradores realizam todas as manobras possíveis, desde a ação psicológica, o suborno, a demagogia, a corrupção, a libertinagem, até a urgência brutal –atam com correntes as pernas do soldado às metralhadoras para conseguir em suas tropas a coesão entre a arma e o homem- e pese a que alcancem alguns êxitos momentâneos, seu exército não poderá escapar da derrota. Assim o demonstrou a realidade do Corpo expedicionário francês e das tropas títeres de Bao Dai na guerra passada em todo o país, como a atual do exército ianque no sul. 

Pelo contrário, no exército do proletariado, devido a que não existe a contradição de classe antagônica, e em que os interesses de classe são unânimes –bases da coesão política e moral-, a lei da coordenação entre o homem e a arma é a do domínio do homem sobre a arma. No seio desta relação entre o homem e a arma, não existe a contradição antagônica entre o homem e a arma, senão uma relação dialética de mútua influência na qual o homem joga o papel dirigente. Por isso, somente aqui se realiza a unidade entre o homem e a arma de maneira completa e íntegra; o homem pode desenvolver sua moral e todas suas capacidades a fim de desenvolver ao máximo o poderio das armas, de manter-se firme frente a todas as circunstâncias políticas complexas, assim como vencer nas mais difíceis fases do combate. Isso faz do exército proletário um exército invencível, resolvido a combater e a vencer. 

A coesão no exército proletário entre o homem e a arma tem bases de classe, se move e desenvolve através das atividades conscientes do homem. Este realiza seu papel decisivo no combate em um todo unido estreitamente com a arma, porque, na particularidade da forma de ação armada, a arma é o instrumento fundamental do homem para converter a possibilidade de suas forças morais em forças materiais capazes de destruir o inimigo. Por isso, ao apreciar o homem dentro das forças armadas, depois de assinalar claramente sua natureza de classe, deve ser visto em sua relação orgânica com a arma e o desenvolvimento dialético desta relação segundo o desenvolvimento da revolução, da luta de classes em cada momento.


Nota: (1) Segundo uma lenda vietnamita, o “Apóstolo Llong”, com a idade de 3 anos, frente à agressão estrangeira, cresceu vertiginosamente, convertendo-se em chefe das tropas da dinastia de Hung e libertou gloriosamente sua pátria. 

*General vietnamita, comunista, historiador, estrategista que venceu Japão, França e EUA 

Publicado em Sin Permiso, Política y Teoría nº 61, Febrero 2007 (www.sinpermiso.info) 

Tradução do espanhol por Cezar Xavier, Portal da Fundação Mauricio Grabois 

sábado, 13 de dezembro de 2014

Textos Militares Escolhidos - Lenin




"Exército Revolucionário e Governo Revolucionário"

"O exército revolucionário é necessário para a luta militar e para assegurar às massas populares uma direção militar nas ações levadas a cabo contra as forças armadas da autocracia. O exército revolucionário corresponde a uma necessidade, por que os grandes problemas históricos só podem ser resolvidos pela violência, e a organização da violência é, na luta moderna, a organização militar. E a autocracia conta, para além da sua própria força militar, com as forças armadas dos Estados vizinhos, cuja ajuda foi já solicitada pelo governo russo na sua demissão, como mais adiante se dirá."

"A socialdemocracia nunca encarou, nem encara tão pouco atualmente, a guerra de um ponto de vista sentimental. A socialdemocracia, que condena irrevogavelmente as guerras como meio irracional de resolver conflitos da humanidade, está consciente de que as guerra serão inevitáveis enquanto a sociedade estiver dividida em classes, enquanto persistir a exploração do homem pelo homem. Para acabar com tal exploração não poderemos evitar a guerra, que sempre, onde quer que esteja, é desencadeada pelas próprias classes exploradoras, dominantes e opressoras. Há a guerra como aventura que serve os interesses duma dinastia, os apetites de um bando de salteadores, os objetivos dos heróis do lucro capitalista. Mas há também a guerra - que é a única guerra legitima, na sociedade capitalista - contra os opressores e escravizadores do povo. Só os utópicos e os filisteus podem, por principio, condenar tal guerra. Só os burgueses que traem a causa da liberdade podem, hoje, na Rússia, repudiar esta guerra, a guerra pela libertação do povo."

(Lenin - 27 de Junho de 1905)

Bibliografia: Textos Militares Escolhidos - Iniciativas Editoriais - 1976 - Lisboa, Portugal
        

quarta-feira, 26 de março de 2014

CHE





como não poderia deixar de ser
alguém, para ser herói de verdade
necessita morrer
carecer tudo entregar
a casa, o amor, o lar
subir a Sierra Maestra
invadir a Calle Ancha
meter bala nos contras
se deixar torturar
e renascer todo o dia
na mão amiga estendida
do companheiro que luta ao lado
imensa linha de frente 
como água fluída
tanto bate na rocha 
que um dia irrompe
a corrente...



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

GIAP - (1911-2013)





Nos pequenos frascos 
estão contidas as grandes essências
ensina a popular sabedoria
Giap foi o pequeno grande homem
que colocou de joelhos os colonialistas
que derrotou impérios
libertou seu povo da decadência 
trazida por bárbaros louros 
vindos do outro lado do mundo

Vietnam, joia da Indochina
do delta do Mekong, 
antro de serpentes, selvas de seiva bruta
às planícies alagadas de Dien Bien Phu
muralha verde que no passado expulsou mongóis,
refugou japoneses, franceses
derrotou norte americanos
soldados do povo, pequenos como eles só
guarnecem suas ameias inexpugnáveis 
de rios caudalosos
terra fértil onde tudo cresce 
foi lá onde o clamor da luta socialista 
por fim despertou milenar nação

Foi nas espaldas desse povo miúdo 
nas rodas das suas bicicletas
por longas rotas selváticas e subterrâneos
que seus exércitos avançaram
contra aviões supersônicos, napalm e alta tecnologia

Diz a marcial sabedoria:
"a moral vale duas vezes mais que o material"
e Giap valeu mais que todos
Vitória do pequeno grande homem
o gafanhoto matou a serpente,
o tigre de papel ardeu em fogo

Nas portas do Palácio Celestial
os clarins da paz anunciam
formam os exércitos de mártires 
a infantaria  com seus chapéus de cortiça
os Viet Mihn, de negras vestes 
dos camponeses de Anam
perfilados com as AK's da liberdade
com seus uniformes de gala
aguardam a chegada do centenário ancião



quinta-feira, 11 de julho de 2013

Bastard Left Hand







Bastard Left Hand


Que gosta de apanhar 

Vitima que se vitimiza 

Pobre cativa, chorosa 

Filha dos antros da tortura 

Enquanto a nobre mão direita 

Barbariza, sacrifica 

Estraçalha as almas e os corpos 

De pessoas pobres indefesas 

Bastard Left Hand 

Suplica medrosa, lamurienta 

Satiriza, canta, faz poesia nos salões 

Para nada mais precisar fazer 

Numa falsa invenção de Ghandi 

Enquanto o planeta agoniza 

E a mão direita age sem limites 

Arrombando portas 

Impune, filha da caserna 

Ri às gargalhadas 

Veste toga e se sacraliza 

Lava as cabeças das jovens gerações 

Bastard Left Hand 

Vocifera, grita palavras de ordem, flagela-se 

Pretende uma paz que inexiste 

Tenta a trégua 

No meio da batalha 

Inerte, bêbada, sem torque 

Onde estão nossos irmãos ? 

A velha geração guerreira definha 

Seus espíritos vagueiam nos Campos Elísios 

Maringhela, Lamarca, Prestes, 

Arraes, Julião, 

Deram tudo pela nação 

Bastard Left Hand 

Empunha de novo a foice e o martelo 

Levanta as barricadas 

Desfralda novamente a bandeira vermelha 


Às ruas cidadãos !